Crise leva empresas a recorrer mais ao crédito especializado
A concessão de crédito está a crescer a ritmos moderados. Enquanto os particulares continuam pedir empréstimos essencialmente para a compra de casa, as empresas voltaram-se para o crédito especializado, que obteve os crescimentos mais significativos em 2004.
Os números globais do crédito em Portugal no ano passado, agregados pelo Banco de Portugal, mostram que foi o crédito à habitação que evidenciou o maior dinamismo, subindo 10,5% (ajustado de operações de titularização). Um crescimento acima do valor total (ajustado) para particulares, que subiu 9,2%.
Mas se os empréstimos ao consumo se mantiveram praticamente inalterados, o crédito pessoal subiu 9,3%, demonstrando que em época de crise os empréstimos sem fim à vista servem, por vezes, para equilibrar os orçamentos familiares. Basta ver o sucesso dos 'créditos por telefone' em Portugal.
O abrandamento do crédito ao consumo, usado essencialmente para particulares e empresas comprarem carro, é visível nos números publicados na semana passada pela Associação das Sociedades Financeiras para Aquisição a Crédito (ASFAC). O crédito concedido por estas empresas, que representam 30% do mercado, subiu 8,8%, chegando aos 4,5 mil milhões de euros.
Com o número de contratos celebrados a cair 23% e com o crédito clássico a particulares a subir 10% (dos quais 75% destina-se à compra de automóvel), conclui-se que os portugueses estão a usar este tipo de empréstimos para comprar carros de valor mais elevado, ou seja, automóveis novos. Uma alteração na prática tradicional, uma vez que estas sociedades financeiras financiavam sobretudo a compra de carro usado.
O peso dos empréstimos ao consumo em todo o crédito concedido a particulares continua, no entanto, a representar apenas 10% do total de empréstimos, com a compra de casa a ficar com a 'fatia de leão', ou seja, 78,3%. Os restantes 11,6% correspondem a crédito para outros fins (pessoal).
'boom' no especializado.
Se a crise económica retrai a procura de crédito por parte das empresas, é igualmente nestas alturas que o crédito especializado regista os crescimentos mais elevados. É o caso do factoring, actividade que consiste na antecipação do pagamento da facturação aos fornecedores de determinadas empresas, que desta forma obtém crédito. Em 2004, o saldo do crédito sobre clientes cresceu 29,7% face ao ano anterior, chegando aos 3,4 mil milhões de euros. Os créditos tomados no ano passado (produção) ascenderam a 14,7 mil milhões de euros, mais 20,8% que em 2003.
"2004 foi o ano em que o sector público administrativo mais se atrasou nos pagamentos aos fornecedores", explicou ao DN o presidente da Associação Portuguesa das Empresas de Factoring (APEF). Como tal, os fornecedores dos organismos públicos (especialmente hospitais) recorreram ao factoring para não terem de esperar mais do que o devido pelos pagamentos. Situação igual verificou-se nas autarquias.
Também as empresas de leasing, outra das formas de crédito especializado, não se podem queixar do exercício de 2004. A produção total da locação financeira ultrapassou os 4,2 mil milhões de euros, mais 27,4% que no ano anterior. O crescimento mais significativo registou-se no imobiliário, que cresceu 36%. O total de crédito concedido pelo leasing cresceu 12%.
Estas taxas de crescimento contrastam com a variação do crédito total a empresas no ano passado, que cresceu apenas 0,9%. Este comportamento resulta essencialmente da estagnação quase total do crédito bancário tradicional a empresas. Tanto no recurso ao factoring como ao leasing, as empresas contam com outro tipo de garantias que tornam estes créditos por vezes mais competitivos que os empréstimos tradicionais.
Artigo Escrito por: Ana Paulo Monteiro
Fonte: DN SAPO : http://dn.sapo.pt/2005/04/11/suplemento_negocios/crise_leva_empresas_a_recorrer_mais_.html



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